URBANGARDE - Showa 90 nen

resenha - 18.06.2016 21:01

URBANGARDE oferece uma cura inspiradora e emocionante para várias doenças sociais do Japão.

Ao contrário da imagem cor de rosa que vários não-residentes têm do país, o Japão, como todas as nações, tem sua boa dose de problemas. Aqueles que acompanham os noticiários podem notar que para cuidar de problemas sociais e internacionais, a mídia japonesa e o governo são frequentemente ineficientes e indecisos. É uma doença da cultura, uma que valoriza o “tatemae” — a "face pública" ou "posição oficial" que dita a interação com outros — em detrimento dos verdadeiros pensamentos de um indivíduo, chamado “honne”. Por sorte, URBANGARDE está aqui para diagnosticar e, quem sabe, tratar essas particulares doenças sociais com seu último álbum, Showa 90 nen.

Durando de 1926 até 1989, o período Showa é sinônimo tanto dos horrores da guerra quanto das glórias do triunfo econômico. O novo álbum do URBANGARDE procura refletir essa miríade de altos e baixos nos dias de hoje, cujo título pode ser traduzido para “Ano 90 Showa”. Se o período atual (Heisei) nunca tivesse começado, essa data corresponderia ao ano de 2015. Showa 90 nen é um álbum conceitual que imagina um Japão bizarro, que de algum modo ainda está em guerra; este mesmo Japão atualmente sendo apresentado ao seu povo pelas “faces públicas” dos políticos e da mídia.

De modo bastante apropriado, a faixa de abertura, Kuchibiru Democracy, é essencialmente militar. No entanto, ao mesmo tempo, sintetizadores animados e a voz intencionalmente gentil de Yoko dá um brilho extra a toda essa experiência. O discurso de Temma no meio da música serve para definir o tom ao instruir os ouvintes em expressarem suas verdadeiras emoções, enquanto uma seção instrumental bastante comovente estabelece que esse não é um álbum positivo.



Zumbidos e bipes frenéticos anunciam a próxima faixa, Love Letter moyu, que apesar de toda a energia e ânimo, trata-se claramente de uma canção triste, mesmo sem a imagem piromaníaca de suas letras.



Em seguida vem Coin Locker Babies, uma condenação retro e techno-fantasmagórica àqueles que gastam suas vidas encarando uma tela em vez de interagir com outros.



O clima fica um pouco mais leve na próxima faixa, Shinjuku Mon Amour, que compara o vai-e-vem do conhecido distrito empresarial de Tóquio a um teatro. A voz de Yoko se destaca sobre toda a seção instrumental dinâmica, um testamento à sua habilidade vocal, por vezes subestimada.



Temma é a próxima a se destacar como a principal vocalista de Shijin gari, uma faixa no estilo disco-music. O grande atrativo dela é seu jogo de palavras extremamente divertido, com sua letra guiando os ouvintes através do alfabeto japonês inteiro.

Depois, os ouvintes são apresentados ao “Homem da Caixa” na música Hako otoko ni kike. As letras pintam um retrato amaldiçoado da mídia japonesa e de seu mercado do medo, com os instrumentos tomando a parte do “medo” na equação e criando um híbrido intimidante de metal com techno. Hako otoko ni kike também deixa bastante claro que as duas vocalistas dominaram a arte do dueto, complementando uma a outra com precisão cirúrgica. Showa 90 nen 12 gatsu segue com uma fusão arrepiante de uma orquestra assustadora e de riffs de metal tão efetiva que beira ao inesquecível.

Os anos 80 estão vivos e muito bem na oitava faixa, Icon aika, que pega elementos musicais da Era de Prata dos Idols e dá a eles a distorção eletrônica bem peculiar do URBANGARDE. O trabalho vocal de Yoko é intencionalmente simples para enfatizar a alusão aos idols e dar aos ouvintes um descanso depois da potência emocional das canções anteriores. Zombie Powder, uma música afiada e com certo balanço, é a próxima e chega como uma surpresa antes do dueto melancólico que fecha o álbum.

Heisei shibou yuugi é submissa, sonhadora e sombria, oferecendo um olhar às dificuldades mentais e emocionais que vários japoneses encaram. A maior parte da faixa consiste de entrevistas com artistas femininas, que dão detalhes do contraste depressivos e frequentemente chocantes entre suas vidas privada e pública.



Fechando com uma nota vívida porém sinistra, o álbum encerra com a agourenta All-Doubt Nippon. O título faz referência a um antigo programa de rádio japonês, "All-Night Nippon", que começou no período Showa, mais uma vez ligando o presente ao passado. A faixa é musicalmente semelhante a Hako otoko ni kike, com riffs de guitarra e uma bateria frenética arrebentando em volta da união perfeita das vozes de Yoko e Temma.

Showa 90 nen, assim como outros lançamentos do URBANGARDE, é feito igualmente de comentários sociais inteligentes e experiências musicais. Uma grande abundância de ambos, entretanto, faz desse álbum conceitual algo realmente especial. Mesmo àqueles que não falam japonês, as músicas são tão bem compostas e executadas que a linguagem não é uma barreira para se experimentar toda a intensidade emocional do álbum. Já àqueles que falam japonês, seria bom uma longa e profunda reflexão das letras. Apesar de ter um significado às vezes obscuro, elas pintam um cenário problemático de um mundo não guiado por seus próprios atos, um mundo onde ninguém é realmente livre para pensar por si mesmo. Showa 90 nen é tanto uma importante sirene de aviso para todo o Japão e, de algum modo irônico, um dos melhores álbuns de 2015. Japonês ou não, qualquer um que aprecia música seria sagaz em fazer desse álbum sua primeira compra do ano 91 da Era Showa.
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